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Naquele dia, ela não arrumou seu quarto. Voltou à cama desfeita e aconchegou-se entre as cobertas emboladas. Não parecia haver sentido em organizar seu ambiente quando, em seu interior, os problemas dançavam e tombavam uns nos outros.

No chão, cacos de vidro e fotografias espalhadas. Ela deveria calçar alguma coisa a fim de não cortar os pés, mas mesmo isso não lhe parecia importante. Chovia no lado de fora e no de dentro.

Ao olhar aquelas fotografias, um sentimento agridoce. Era bom saber que aquelas memórias estavam a salvo; imortalizadas no passado imutável, sem a mácula dos acontecimentos vindouros. Em contrapartida, ela as olhava com um nó na garganta, perguntando-se quando se dera o início do fim.

Aquele era um dia em preto e branco, em que as horas não passavam e o mundo não girava. Não haveria um amanhã e nem depois, porque a dor é paralisante. Tudo era o quarto, as fotos, os cacos. Tudo eram as lágrimas no travesseiro, os soluços teimosos e o cabelo despenteado.

Analisando melhor uma foto, percebeu um brilho que já não havia mais em seus olhos. Uma leveza que a vida lhe roubara. Sempre culpara o fato de ele tê-la deixado, mas já não tinha mais certeza. Talvez, se ela sentisse menos, ele ainda estaria ali. Talvez ainda fosse o homem que conhecera, antes dos anos o transformarem num estranho. Talvez tudo pudesse ter sido diferente. Mas não fora.

Naquele dia, ela não arrumou o quarto e se deixou adormecer num travesseiro molhado de lágrimas. Mas o encanto da dor passou e o despertador tocou anunciando um novo dia. Incrédula, ela o desativa e, lentamente, senta-se para assimilar a realidade. Quando dá-se conta de que o dia eterno acabou, ela roboticamente troca de roupa, prende o cabelo e cobre as olheiras com maquiagem, desejando maquiar também os seus fantasmas.

Com saltos mais altos que ela gostaria de usar, ela encara a realidade, ansiando pelo momento em que dariam seis horas da tarde, quando ela então voltaria para casa e para o seu quarto desarrumado. Ela então abriria um vinho e o tomaria em goles pequenos, com o olhar perdido, contemplando o passado e o futuro, enquanto tentava esquecer o presente.

Este conto faz parte do Projeto 121 do grupo Blogs Up (clique para saber mais). Baseado no item #62 - Escreva sobre Aquele dia


Olha, não é tão fácil assim me irritar, mas... Tem certas coisas que tiram qualquer um do sério. E, se tratando da blogosfera, essas são as que provavelmente mais me fazem ~subir nas tamancas~ - ilustrados pela Lucy de I love Lucy, porque ela nos representa 

Desde sempre sou apaixonada por artigos de papelaria. Entre canetas e post-its, também tenho uma coleção de papéis de carta que comecei na infância e que vira e mexe recebe mais alguns itens. Estou voltando a escrever cartas para amigos que moram longe (ou não tão longe assim) e, quando minha tia também decidiu retomar o hábito, decidimos fazer umas comprinhas online.

O site escolhido foi o Papéis de Carta.com, e - meu Deus - como foi difícil escolher! São muitas opções de papéis nacionais, vintage e importados. Por fim, acabei optando pelos lotes promocionais que a loja oferece para remediar minha indecisão.

Agora se preparem para as muitas fotos desse meu acesso de nostalgia (e muitos gatíneos):

Quando eu fazia terapia, minha psicóloga falou que existem dois tipos de criança. Algumas, ao derramar um copo de água, por exemplo, perceberão o fato e vão naturalmente tentar consertá-lo. Já outras arregalam os olhos, apavoradas, já imaginando as consequências ruins que se seguirão. 

Essa história serviu para ilustrar o que ela chamou de permissão interna para o erro. Eu não lembro exatamente de qual tipo de criança eu era, mas posso afirmar que foi algo que precisei lutar para conquistar depois de grande.